O Último Ponteio na Estrada de Terra
O sol já ia tombando lá pelas bandas do horizonte, tingindo o céu de um vermelho que parecia sangue de boi. Seu Juvêncio arrastou o banquinho de madeira para a varanda da casinha de pau a pique, tirou o chapéu de couro para secar o suor da testa com a manga da camisa xadrez e suspirou fundo. Na mão calejada, segurava a sua companheira de uma vida inteira: uma viola caipira de 10 cordas, com o verniz já gasto pelas décadas de cantorias.
— Sabe, viola... Parece que foi ontem que a gente correu o mundão atrás de festança de santo — murmurou ele, olhando para a estrada de terra vermelha que serpenteava o sítio.
A história de Juvêncio era daquelas que o povo da roça contava na beira do fogão a lenha. Na juventude, ele e seu compadre Zé Divino formavam uma dupla de respeito. Corriam as festas de São Benedito e do Divino Espírito Santo tocando moda de viola e tirando cururu até o raiar do dia. Não havia desafio que eles temessem. Naquele tempo, a vida era dura, mas a poesia brotava fácil do chão da roça, embalada pelo som das terças paralelas que ecoavam na imensidão do Centro-Oeste.
Mas o tempo, que não perdoa ninguém, foi cobrando o seu preço. O compadre Zé partiu primeiro, levado numa tarde chuvosa. Os filhos de Juvêncio tomaram rumo da cidade grande, trocaram o cheiro de mato pelo ronco dos carros e pouco apareciam para visitar o velho pai. Restaram apenas o rádio de pilha chiando no canto da cozinha, o cachorro vira-lata deitado sob o mourão e a lembrança viva dos velhos tempos.
Foi então que, naquela tarde mansa, uma caminhonete poeirentar parou de repente na porteira. De dentro dela desceu um rapaz jovem, com uma mochila nas costas e um olhar curioso.
— Boa tarde, vô! O senhor me dá um copo d'água? O carro deu uma enguiçada logo ali na curva.
Juvêncio, hospitaleiro como todo bom caipira, levantou-se pronto para acudir. — Mas com certeza, meu filho. Chegue mais, puxe um banquinho. A água fresca está ali na moringa, e prosear nunca fez mal a ninguém.
Enquanto o rapaz matava a sede, os olhos dele caíram sobre a viola encostada na cadeira. — O senhor toca? Meu avô contava que o senhor era violeiro dos brabos no tempo das festas de santo.
O velho sorriu de canto de boca, sentindo o peito aquecer. Pegou a viola no colo, ajeitou as cordas com cuidado de quem mexe com relíquia e começou a pontear uma toada lenta, daquelas cheias de saudade. A melodia parecia conversar com o vento que balançava os ramos dos cafezais.
O rapaz ficou silenciado, enfeitiçado pela música que parecia carregar a alma de todo o interior do Brasil. Naquele instante, entre um acorde e outro, Juvêncio percebeu que a tradição não morria enquanto houvesse alguém disposto a escutar. A estrada de terra podia trazer a modernidade e o esquecimento, mas a viola — ah, essa continuaria ecoando na garganta e no coração de quem valoriza as suas raízes.