O Causo do Velho Venâncio, O Homem Que Só Sabia Xingar

Lá pro lado da grota funda, morava o Nhô Venâncio. Um velho de feição dura, carrancudo que só vendo. Mas o pior não era a cara dele. O pior era a boca.

O homem não falava, ele cuspia marimbondo. Se a galinha ciscava perto, ele rogava praga. Se o tempo secava, amaldiçoava o céu. Se chovia, xingava a terra. Parecia que o sangue dele corria amargo nas veias.

A vizinhança passava longe. Ninguém queria cruzar com o Venâncio na estrada. Tinha gente que jurava que até o capim secava onde ele pisava, de tanta energia pesada que o velho carregava.

O desafio na noite de finados

Foi numa noite de ventania braba. Aquela ventania que faz a telha assobiar e os cachorros uivarem de medo.

Venâncio tava sozinho na varanda, tomando um gole de pinga roxa. Um raio estourou perto da cerca e assustou o cachorro dele, que deu um pulo e derrubou o lampião, deixando tudo num breu danado. O cachorro fugiu pro mato, ganindo.

Ah, meu amigo… Pra que.

O velho Venâncio levantou espumando de raiva. Bateu o pé no chão com força e gritou pro tempo, desafiando tudo que é sagrado e profano. — Maldito seja esse pedaço de terra! Que a escuridão engula tudo isso aqui, e que me engula junto, porque dessa vida eu só tenho nojo!

A palavra rasgou a noite. E, logo em seguida, o vento parou.

O silêncio que ensurdece

Não foi um silêncio normal. Foi um silêncio oco, pesado. Daqueles que a gente ouve a própria batida do coração.

Venâncio tentou acender um palito de fósforo, mas o fogo riscou e apagou na mesma hora, como se alguém tivesse soprado. Ele tentou gritar de novo, mas a voz travou. Era como se o som tivesse sido arrancado da garganta dele.

No meio do escuro, a porta de madeira da casa rangeu. Bem devagarinho.

Ele arregalou os olhos. Um restinho de clarão de relâmpago iluminou a parede, e ele viu a própria sombra projetada nela. Só que tinha um problema: o velho Venâncio tava paralisado de pavor, mas a sombra dele… a sombra levantou o braço, apontou pra dentro da casa escura e começou a rir. Um riso sem som que gelou a espinha do homem.

O fim que ninguém explica

Ninguém sabe direito o que aconteceu depois daquela noite.

Passou uns três dias e os vizinhos notaram que não saía fumaça do fogão a lenha. Foram até lá conferir. A casa tava completamente vazia. Não tinha sinal de luta, não tinha porta quebrada, não tinha nada.

A única coisa que acharam foi a roupa do velho Venâncio, inteirinha e abotoada, jogada no chão do terreiro. Parecia que o corpo tinha simplesmente evaporado de dentro dela. E a terra ali em volta, que antes era dura e batida, virou uma areia fofa e escura, como se tivesse afundado e engolido alguma coisa pra nunca mais devolver.

Até hoje, quem passa por aquela banda da grota tem arrepios. E se o vento bate forte no meio das árvores, dá pra escutar uma voz rouca, bem distante e abafada, resmungando e xingando debaixo da terra, presa no escuro pra todo o sempre.

Porque na roça, a gente aprende desde cedo: a palavra é semente. E quem planta maldição, corre o risco de ser engolido pela própria colheita.

Deixe um comentário