A Vingança do Coveiro sem Nome

Dizem as más línguas de Itapetininga — e quem conhece a região sabe que ali o mato fala — que existe uma cova rasa no fim do cemitério velho que nunca foi batizada com cruz. Contam os antigos que, há mais de cem anos, um coveiro forasteiro chegou para trabalhar, mas ele não tinha nome, não tinha parentes e, pior, não tinha alma.

Ele vivia enterrado no serviço, cavando de sol a sol com um vigor que assustava os vivos e os mortos. O problema começou quando o forasteiro passou a enterrar gente que nem sequer tinha morrido ainda. O povo via as luzes da lanterna dele dançando entre os jazigos durante a madrugada e, no dia seguinte, ouvia o som seco da enxada batendo na terra dura.

Certa noite, o filho mais novo do fazendeiro mais rico da região desapareceu. A busca durou três dias, mas não encontraram nem o rastro do rapaz. O pai, desesperado, montou guarda na entrada do cemitério. Quando o relógio da igrejinha badalou meia-noite, ele viu o forasteiro saindo de dentro da capela, carregando um saco pesado que se contorcia.

O fazendeiro, cego de ódio e medo, avançou com a espingarda em punho. “O que tem aí, desgraçado?”, berrou ele. O coveiro parou, virou-se devagar, e o que o fazendeiro viu não foi um rosto de homem. A pele era cinzenta como cinza de fogão, e os olhos, dois buracos fundos que pareciam sugar a própria luz da lanterna.

Dizem que o fazendeiro não atirou. Ele ficou paralisado enquanto o forasteiro jogava o saco na cova aberta e começava a cobrir o buraco com uma velocidade sobrenatural. Quando a terra terminou de cobrir o último pedaço de tecido, o coveiro olhou nos olhos do fazendeiro e, com uma voz que parecia vir de dentro da própria cova, sussurrou: “O próximo é você”.

O fazendeiro fugiu dali, abandonando tudo. Ninguém nunca mais viu o rapaz, e nem o forasteiro. Mas, em noites de lua cheia, quem passa pelo muro do cemitério jura que ouve o som de alguém cavando… e uma voz que chama pelo nome da pessoa, convidando-a para a cova que, por capricho do destino, nunca fica vazia por muito tempo.

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