Lá pelas bandas do Córrego Fundo, vivia o Sebastião, que todo mundo só chamava de Zé Moleza. O apelido não era à toa, não senhor. Diziam as más línguas que o Zé cansava até dormindo. Se ele visse uma enxada, já começava a bocejar; se ouvisse falar em lida, a junta dele amolecia na hora.
A mulher dele, a coitada da Dona Rosa, era uma formiguinha. Trabalhava de sol a sol pra manter o sítio de pé. O Zé? O Zé ficava na varanda, pitando um cigarro de palha, filosofando sobre o tempo e cuidando pra que o banco não fugisse dali.
O dia da garapa doce
Foi numa tarde de calorão, daquelas que o mormaço sobe da terra e a gente sente o cheiro da chuva chegando de longe. Dona Rosa, exaurida de tanto moer cana sozinha pra fazer um melado, pediu um favorzinho pro Zé:
— Zé, pelo amor de Deus, vai lá no canavial e pega só umas três canas-caianas pra mim. Eu tô com a espinha quebrada e preciso terminar esse melado hoje.
O Zé olhou pro sol, olhou pra roça (que nem era tão longe assim) e suspirou como se tivessem pedido pra ele carregar o mundo nas costas.
— Ah, Rosa… Num vê que o sol tá forte? Minha pressão até cai. Deixa pra amanhã, uai.
Dona Rosa nem respondeu. Entrou pra cozinha bufando, com os olhos marejados de cansaço e desgosto.
A tentação na sombra
O Zé, sentindo um tiquinho de culpa (ou talvez só medo de ficar sem janta), resolveu se levantar. Foi andando devagarinho, arrastando os chinelos de dedo, em direção ao canavial.
No meio do caminho, tinha um pé de manga espada, frondoso, com uma sombra que parecia um abraço. O Zé parou. Olhou pras canas lá adiante, reluzindo no sol, e olhou pra sombra fresca.
“Se eu sentar aqui só cinco minutinhos pra ‘refrescar’ a ideia, o sol abaixa um pouco e eu pego a cana com mais gosto”, pensou o infeliz.
A lição veio lá do céu (e do chão)
O Zé encostou no tronco da mangueira, ajeitou o chapéu de palha sobre o rosto e, num piscar de olhos, já tava roncando. Mas o que o Zé não sabia era que aquele tronco não era um encosto qualquer. Era o endereço de uma colônia de formigas-cabaça das bravas, daquelas que a picada parece que queima a carne da gente.
E, pra piorar a situação do nosso amigo preguiçoso, no galho logo acima dele, tinha uma casa de marimbondo-caçador, grandona e pesada.
Não se sabe se foi o ronco do Zé que vibrou o tronco, ou se foi o chapéu que bateu nas formigas, mas o inferno se abriu.
Primeiro, foi uma formiga. Depois dez. Depois uma centena. Elas subiram pelas calças do Zé, pela camisa, entraram no pescoço. O Zé acordou pulando, gritando que nem alma penada, estapeando o próprio corpo.
Nesse pula-pula desesperado, o Zé Moleza deu uma cabeçada violenta no galho de cima. O ninho de marimbondo caiu direto no colo dele.
O milagre da velocidade
Quem viu, jura que nunca testemunhou um milagre tão rápido. O Zé, que não corria nem se a casa tivesse pegando fogo, virou um atleta olímpico do sertão.
Ele corria em ziguezague, pulava cerca, gritava por Nossa Senhora, enquanto um enxame preto de marimbondos vinha atrás, ferroando sem dó nem piedade. O Zé não foi pro canavial. Ele foi direto pro poço de água perto da casa. Deu um salto mortal e mergulhou com roupa e tudo, chapéu e o que mais tinha.
Dona Rosa saiu correndo pra ver o que tava acontecendo. Viu o Zé pulando no poço e o enxame zumbindo em volta da água, bravo que só vendo.
Do poço pra lida
Quando o enxame se acalmou, o Zé saiu do poço. Tava inchado que parecia uma bola de assoprar. Tinha picada no rosto, nos braços, nas costas. O corpo ardia como se tivessem jogado pimenta pura nele.
Dona Rosa, com pena mas com uma pontinha de satisfação (não vamos mentir), cuidou dos ferimentos com fumo e barro.
O Zé passou a noite em claro, gemendo de dor e coceira. No dia seguinte, bem cedinho, antes do sol nascer, Dona Rosa acordou e não viu o Zé na cama. Se assustou.
Foi pra varanda e não viu o Zé no banco. Correu os olhos pro terreiro e… lá estava ele. Zé Moleza, com o corpo todo doído, mas de enxada na mão, capinando o canavial com uma vontade que ninguém nunca tinha visto antes.
Ele parou um minutinho, olhou pra Dona Rosa e disse com a voz mansa:
— Descobri uma coisa ontem, Rosa. A preguiça até que é gostosa, mas o preço que ela cobra dói demais da conta. É melhor cansar o corpo no trabalho do que deixar a vida (e os marimbondos) bater na gente pra aprender.
A partir desse dia, o apelido de Zé Moleza morreu. O Sebastião virou um dos homens mais trabalhadores da região. E ele nunca mais, nunca mais mesmo, sentou debaixo de uma árvore sem dar uma boa olhada pra cima e pra baixo antes.



