O Causo do Rádio de Pilha: A Confusão do Tião com o Povo da Caixinha

Sabe quando a tecnologia chega lá no meio da roça e a pessoa não tá muito acostumada? Pois é. Dá confusão na certa.

Essa é a história do Tião. Um caboclo bom, trabalhador, mas que morava tão embrenhado no mato que mal via a luz da cidade.

Um dia, o Tião vendeu uns porcos e resolveu que era hora de ter um luxo na vida. Desceu até a venda do Nhô Quim e comprou um rádio de pilha. Daqueles grandões, pretos, com uma antena prateada que parecia vara de pescar. Comprou o rádio e um pacotão de pilha capivara.

Chegou no sítio, botou o bicho em cima da mesa de madeira, ajeitou as pilhas e ligou.

Chiou, chiou… e de repente, a mágica aconteceu. Saiu a voz de um locutor falando alto, anunciando festa, tocando moda de viola.

O Tião arregalou os olhos. Deu um pulo pra trás. Olhou debaixo da mesa. Olhou atrás do rádio.

Uai… como é que esse homem foi parar aí dentro? — pensou ele, coçando a cabeça.

A mulher dele, a Dona Cotinha, benzeu a testa e foi se esconder na cozinha. Achou que era coisa do outro mundo. Mas o Tião, teimoso que só, cismou que tinha umas pessoas bem pequenininhas morando lá dentro daquela caixa falante.

Os dias foram passando. O Tião não desligava o rádio pra nada. Ele conversava com o locutor. Se tocava uma moda triste, ele chorava junto e oferecia pinga pro aparelho. Se tinha jogo de futebol, ele ficava avisando o narrador onde tava a bola.

Mas aí, meu amigo ouvinte, o rádio começou a ficar com a voz rouca. O som foi afinando, arrastando, até que… parou. Emudeceu.

O Tião desesperou. Pegou o rádio, sacudiu, bateu na lateral e nada. Botou o ouvido colado na caixa. Silêncio.

Ele não pensou duas vezes. Correu na cozinha, pegou a chave de fenda e abriu a tampa do rádio. Olhou aquele monte de fio verde, vermelho, aquele bando de pecinha soldada. Olhou pras pilhas gastas.

Ficou vermelho de raiva. Botou o rádio debaixo do braço, montou no cavalo e foi voando pra venda do Nhô Quim.

Chegou lá bufando. Bateu o rádio no balcão, assustando os fregueses.

Ô, Nhô Quim! Eu quero meu dinheiro de volta, sô!

O dono da venda não entendeu nada. — Uai, Tião, que que foi? O rádio estragou?

O Tião, com a mão na cintura e a cara mais brava do mundo, soltou a pérola:

Estragou nada! O senhor me enganou. Me vendeu uma caixa cheia de arame e fio grosso! Aquele povo miúdo que cantava aqui dentro não tinha o que comer e foi tudo embora!

A venda inteira caiu na gargalhada. O povo ria que chorava, batendo na perna.

O Nhô Quim teve que gastar um tempão pra explicar pro Tião que o que tinha acabado era só a força da pilha. Trocou as baterias e o rádio voltou a berrar ali mesmo no balcão.

O Tião pegou o aparelho de volta, meio desconfiado e foi embora!

Daquele dia em diante ele só por segurança passou a deixar um prato de quirera bem do lado do rádio… afinal , vai que o povo miúdo fica com fome denovo , né?

Deixe um comentário