Tião Correia era um homem bom, trabalhador, mas vivia numa agonia que só vendo. O bicho não andava, ele trotava. Se você oferecesse um café coado na hora, ele já tava virando as costas dizendo que o dia era curto e a lida era comprida demais.
Sempre correndo. Sempre com a testa franzida, medindo a altura do sol pra não perder um minuto.
Parecia que ele tava apostando corrida com o próprio vento. A esposa, dona Maria, vivia avisando: “Tião, o mundo não acaba hoje não. Senta um tiquinho, respira”. Mas que nada. O homem entrava na caminhonete e saía levantando poeira pela estrada de terra, com a cabeça lá no amanhã.
O dia que a pressa encontrou a chuva
Foi numa tarde de novembro. Aquelas tardes abafadas, que o céu vai ficando com cor de chumbo de uma hora pra outra. Tião cismou que precisava buscar uma peça pro trator lá na cidade, antes que a loja fechasse. Era questão de vida ou morte, segundo ele.
Entrou na caminhonete. Acelerou fundo.
Mas no meio do caminho, o céu desabou. Uma daquelas chuvas de verão grossas, que lavam a alma da gente, mas que transformam qualquer estrada de terra num sabão puro. E lá no trecho da baixada, a pior parte do caminho, o inevitável aconteceu.
A caminhonete escorregou. Rodou na pista. E atolou até o chassi no barro vermelho.
A raiva e o atolador
Pensa num homem bravo.
Tião xingava, acelerava, a roda patinava em falso e jogava lama no vidro, na lataria, em tudo. Ele desceu do carro, tentou empurrar no braço, enfiou galho debaixo do pneu. Quanto mais ele se debatia e esbravejava, mais o pneu afundava e mais ele se sujava.
Tava lá, pingando suor e chuva, coberto de barro da cabeça aos pés, quando escutou um barulho manso vindo da curva.
Tloc, tloc, tloc.
Era o velho Nhô Lau, vindo devagarinho no lombo da sua mula, protegido por um sombreiro e uma daquelas capas de chuva antigas.
A sabedoria da roça que freou o apressado
Nhô Lau parou a mula. Olhou a cena. Não disse nada de primeira.
Puxou um cigarro de palha do bolso, acendeu com a maior paciência do mundo, protegendo o fogo do vento com a mão calejada. Deu uma tragada, soltou a fumaça no ar úmido e olhou pro Tião, que tava quase tendo um treco de tanto nervosismo.
— Ô, Tião… — a voz de Nhô Lau saiu mansa, macia. — Cê acha mesmo que esse barro aí tem medo de grito?
Tião parou. Ficou bufando, olhando pro velho.
— O mundo tem o tempo dele, meu filho — continuou Nhô Lau, ajeitando as rédeas. — A chuva tem o tempo de cair. A terra tem o tempo dela de beber a água. E o barro tem o tempo certinho de secar. Não adianta ocê gastar seu motor tentando passar por cima do relógio de Deus. A lama não seca no grito.
Um café e uma vida nova
Aquelas palavras bateram no peito de Tião mais forte que a chuva de novembro. Ele olhou pro carro atolado. Olhou pras próprias mãos sujas de terra.
Pela primeira vez em anos, ele soltou os ombros. A respiração, que vivia curta e acelerada, ficou funda. Uma paz esquisita tomou conta dele. Afinal, não tinha o que fazer. A loja ia fechar, a peça ia ficar pra amanhã, e o mundo… bem, o mundo ia continuar girando do mesmo jeito.
— Vem cá, menino. Minha casa tá logo ali atrás do morro — disse Nhô Lau. — Dona Rita acabou de coar um café. A gente senta, espera a chuva estiar, a água descer… amanhã o trator do vizinho puxa sua caminhonete.
Daquele dia em diante, quem cruza com Tião Correia na estrada vê um homem diferente. Ele ainda trabalha duro, claro, não deixou de ser caprichoso com a lida. Mas aprendeu a andar sem pressa. Aprendeu que, de vez em quando, a melhor coisa que a vida faz com a gente é nos dar um atolador bem grande, só pra gente ser obrigado a parar, respirar e tomar um café.



