O Causo do Juca Mão-Pesada: A Lição que Veio do Fundo da Mata

Conheci um sujeito chamado Juca. O povo da região do Ribeirão das Pedras só o chamava de Juca Mão-Pesada. E o apelido não era por causa de trabalho duro, não. Era por pura maldade.

O Juca não podia ver um cachorro dormindo na sombra que já soltava um pontapé. As mulas dele viviam com o lombo esfolado de tanta chibata que levavam sem precisão. Até o galo do terreiro corria quando via a sombra do homem. O bicho de estimação dele era um vira-lata magrelo chamado Valente, que vivia encolhido, de orelha baixa, acostumado a receber sobra de comida e sobra de raiva.

Dona Cida, a vizinha mais velha, vivia avisando: — Ô Juca, o castigo de quem maltrata quem não pode se defender vem a cavalo, viu? Deus não dorme.

Mas o Juca só dava risada, cuspia no chão e dizia que bicho não tinha alma e nasceu pra servir o homem.

O dia que a onça miou no peito

Foi num mês de agosto, época de seca braba e vento zangado. Uma novilha do Juca arrebentou a cerca e sumiu pro lado da Mata Escura, um pedaço de floresta fechada que o povo evitava entrar. O Juca pegou a espingarda, um facão, deu um chute no cachorro Valente pra ele sair do caminho e entrou na mata praguejando.

Andou horas e horas. O sol foi caindo, as sombras foram esticando e nada da novilha. Quando ele resolveu voltar, a noite já tinha engolido a luz.

Foi aí que o azar mostrou a cara. Pisando no seco, o Juca não viu um buraco fundo, coberto de cipó e folha seca, que os antigos caçadores tinham feito pra pegar anta.

Catapimba!

O Juca caiu feio. A perna dobrou por baixo do corpo, dando um estalo alto. A dor foi tanta que ele quase desmaiou. A espingarda voou longe, e ele ficou lá, no fundo do buraco, sem conseguir se mexer, com a perna quebrada e a noite fria caindo no lombo.

A prova da lealdade

O homem gritou, chorou, xingou, mas quem é que ia escutar lá no meio do nada? O silêncio da mata foi quebrado apenas por um uivo de lobo-guará ao longe. O medo, pela primeira vez na vida, tomou conta do Juca Mão-Pesada.

Foi lá pela madrugada, tremendo de frio e de dor, que ele escutou um barulhinho na beira do buraco.

Fung, fung, fung.

Um focinho úmido apareceu lá em cima. Era o Valente. O cachorro que, horas antes, tinha levado um chute do próprio dono, tinha seguido o rastro do Juca até ali.

O Juca achou que ia ser abandonado. Afinal, por que o cachorro ajudaria quem só lhe dava dor? Mas o Valente ficou lá. Latiu fininho, como quem diz “tô aqui”, e depois sumiu na escuridão.

A mudança do coração

O sol já tava alto no outro dia quando Juca escutou vozes. Eram os vizinhos, guiados pelo Valente, que tinha voltado até a vila, latido na porta de Dona Cida e puxado a barra da saia dela até os homens se juntarem pra seguir o animal.

Com cordas e muito esforço, tiraram o Juca do buraco. O homem tava branco, desidratado e sujo. Quando o colocaram na maca improvisada, o Valente veio de fininho e lambeu a mão machucada do dono.

Naquele momento, o coração de pedra do Juca rachou no meio. As lágrimas, que ele não derramava desde menino, desceram lavando o rosto sujo de terra. Ele passou a mão trêmula na cabeça do cachorro e murmurou:

Me perdoa, meu amigo. Me perdoa.

O novo Juca

O Juca ficou três meses de cama pra perna sarar. E nesses três meses, teve muito tempo pra pensar na vida.

Hoje, se você passar pelo sítio no Ribeirão das Pedras, não vai reconhecer o lugar. As mulas tão gordas e mansas, o terreiro é cheio de bichos descansando sossegados. E, na varanda da casa, no melhor tapete, quem dorme feito rei é o Valente, que não sai do lado do dono pra nada.

O Juca aprendeu a pior das lições da melhor forma possível. Descobriu que a força de um homem não tá no peso da sua mão, mas na capacidade do seu coração de cuidar de quem depende dele. E quem desrespeita a natureza e os animais, acaba um dia sendo engolido pelos próprios buracos que a vida cava.

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