O Causo do Zé Lorota: O Dia que a Mentira Engoliu o Mentiroso

Lá pras bandas do Rio Manso, vivia o Zé. Mas ninguém lembrava do sobrenome da família dele, porque a região inteira só o conhecia por Zé Lorota.

O homem não conseguia falar uma verdade limpa. Se ele pescava um lambari do tamanho de um dedo, chegava na venda dizendo que tinha brigado meia hora com um dourado de dez quilos. Se via um rastro de cachorro no mato, jurava de pé junto que era uma onça-pintada que ele tinha espantado no grito.

O povo da roça é educado, sabe como é. Escutava, balançava a cabeça, dava uma risadinha de canto de boca e deixava o Zé falar. Ele se achava o homem mais corajoso e interessante do sertão.

A invenção da sucuri gigante

Foi num sábado de tardezinha, com a venda do Nhô Quim lotada de gente, que o Zé resolveu soltar a maior mentira da vida dele.

Ele chegou suado, com a roupa suja de barro, pediu uma pinga e bateu no balcão: — Ocês não sabem do perigo que eu livrei essa vila hoje! — anunciou, com o peito estufado.

A roda de conversa parou. Todo mundo olhou.

O Zé engatou a primeira e foi embora. Contou que tava cortando lenha perto do Poço Fundo quando deu de cara com uma sucuri de uns trinta metros. Disse que a bicha tentou dar o bote, mas ele, muito ligeiro, pulou no pescoço dela.

Briguei com o bicho no braço! — dizia ele, gesticulando. — Dei um nó cego no rabo dela, amarrei no tronco de uma peroba-rosa grossa e vim pra cá buscar ajuda pra carregar o couro!

A conta chega na hora

O silêncio na venda foi geral. Dessa vez, ele tinha passado do limite.

Seu Tião, que era o homem mais velho e respeitado do lugar, levantou devagarinho, pegou a espingarda e um rolo de corda. — Pois muito bem, Zé. Uma cobra desse tamanho não pode ficar amarrada por aí. Os homens aqui vão com ocê agora mesmo pra gente abater a bicha e trazer pra vila. Vamo simbora.

O Zé gelou. A cor sumiu do rosto dele. Ele gaguejou, disse que tava escurecendo, que a corda podia arrebentar, que era melhor deixar pra amanhã. Mas não teve jeito. Os homens já tavam com as lanternas na mão.

O milagre (e o susto) no Poço Fundo

O caminho até o rio foi um velório. O Zé ia na frente, pingando suor frio, tremendo igual vara verde.

Na cabeça dele, o plano era simples: chegar na tal peroba-rosa, mostrar que a corda “arrebentou” e fingir que a cobra tinha fugido. Ele rezava baixinho: “Meu Deus, me livra dessa vergonha. Faz a peroba aparecer vazia lá, eu nunca mais minto na vida”.

Eles chegaram no Poço Fundo. As lanternas rasgaram a escuridão e iluminaram o tronco da peroba-rosa.

O coração do Zé Lorota quase parou. As pernas amoleceram e ele caiu sentado no barro.

Lá, enrolada na raiz da árvore, não tinha corda nenhuma. Mas tinha uma sucuri de verdade. Não de trinta metros, claro, mas imensa, com a grossura de um pneu de trator, dormindo pesada depois de ter engolido alguma capivara desavisada.

Os homens da vila deram um passo pra trás, assustados de verdade.

Valha-me Deus, Zé! — sussurrou o Nhô Quim. — Ocê não mentiu! O bicho é um monstro mesmo. E ocê amarrou isso aí no braço?

A cura da lorota

O Zé tava tão em choque com a coincidência assustadora que não conseguiu confirmar a mentira. Ele olhou pra cobra, olhou pros homens e, ali mesmo, a vergonha bateu mais forte que o orgulho.

Não fui eu, Nhô Quim… — ele choramingou, com a voz embargada. — Eu inventei tudo. Eu nunca vi essa cobra na vida. Foi castigo do céu por eu ter a língua solta!

Os homens se olharam. Acharam graça da coincidência, mas deixaram a cobra quieta lá digerindo o almoço dela e voltaram pra vila, rindo a beça do susto do Zé.

Daquele sábado em diante, se você perguntar as horas pro Zé, ele pensa duas vezes antes de responder, só pra ter certeza de que o relógio tá certo. Porque ele aprendeu da maneira mais dura: as palavras têm tanta força, mas tanta força, que de vez em quando a vida resolve transformar a nossa mentira na nossa pior verdade.

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