O Causo do Tonho Boca-Suja: O Dia que a Escuridão Respondeu

Lá nas bandas da Serra do Vento Frio, morava o Antônio. Mas ninguém chamava ele assim. O nome de batismo tinha se perdido e dado lugar ao apelido de Tonho Boca-Suja.

O Tonho não conversava, ele rosnava. Se o sol tava quente, ele xingava o sol. Se chovia, praguejava contra a chuva. Se a vaca dava pouco leite, ele soltava os cachorros. Não tinha uma frase que saísse daquela boca sem um palavrão no meio ou uma invocação pro Tinhoso.

O padrinho dele, Seu Dito, homem sábio da roça, vivia alertando: — Ô Tonho, toma tenência dessa língua. Palavra é semente que a gente joga no ar. Uma hora o vento vira e a colheita volta pra você. Cuidado pra não chamar quem tá doido pra vir.

Tonho dava uma gargalhada rouca, soltava mais três xingamentos e ia pro pasto. Pra ele, aquilo era bobagem de gente medrosa.

A noite da porteira emperrada

O azar do Tonho começou numa sexta-feira de lua minguante. Ele tinha ido até a vila comprar uns pregos e acabou se demorando no boteco, jogando truco. Quando pegou o caminho de roça pra voltar pro sítio, a noite já tava escura que nem breu.

O caminho passava por uma encruzilhada perto de uma figueira centenária. O cavalo do Tonho, o Estrela, começou a refugar. Jogava a cabeça, bufava e não queria passar perto da árvore de jeito nenhum.

Foi aí que o Tonho perdeu a pouca paciência que tinha. Começou a xingar o cavalo de tudo que era nome feio. Desceu da sela, puxou a rédea no tranco e foi abrir a velha porteira de madeira que dava acesso ao atalho. Mas a porteira tava emperrada.

Tonho puxou, empurrou, e nada. Na raiva, ele deu um chute na madeira. Uma farpa enorme entrou na sola da bota e furou o pé dele.

A invocação no meio da mata

Cego de dor e de raiva, o Tonho Boca-Suja fez o que sabia fazer de melhor: praguejou com toda a força dos pulmões.

Ele xingou a porteira, xingou o cavalo, xingou a lua e, num grito de fúria, chamou o Coisa-Ruim pelo nome, convidando o bicho pra vir buscar aquela porteira, aquele cavalo e a vida inteira dele de uma vez por todas.

Assim que a última palavra maldita saiu da boca do Tonho, uma coisa estranha aconteceu.

O vento parou de supetão. Os grilos calaram a boca. O cavalo Estrela deu um relincho de pavor, arrebentou a rédea e sumiu na escuridão, deixando o homem sozinho. O silêncio ficou pesado, zumbindo no ouvido.

O encontro com a sombra

Do meio das raízes da figueira velha, uma neblina fria e rasteira começou a sair. O ar ficou com cheiro de enxofre e terra podre. Tonho travou no lugar. Tentou falar um palavrão pra espantar o medo, mas a voz não saiu.

De repente, a escuridão pareceu tomar forma. Uma sombra alta, de mais de dois metros, parou na frente da porteira. Não tinha rosto, mas tinha dois olhos vermelhos que brilhavam como brasa de fogão a lenha.

Uma voz que parecia pedra raspando em pedra ecoou, não no ar, mas dentro da cabeça do Tonho:

Você me chamou tanto, Antônio. Chamou no sol, chamou na chuva, chamou agora. Eu vim. O que é que você quer me dar hoje?

O terror tomou conta do corpo do caipira. Ele quis rezar uma Ave-Maria, mas a boca dele tava tão acostumada com a sujeira que ele tinha esquecido as palavras da oração. As pernas tremiam tanto que ele caiu de joelhos no barro.

A sombra deu um passo pra frente, esticando uma mão longa e escura na direção dele.

Já que você não sabe usar a voz pra bendizer, eu levo ela comigo.

Tonho sentiu um frio glacial atravessar a garganta. Ele apagou ali mesmo, no pé da porteira.

O silêncio que ensina

Na manhã seguinte, Seu Dito encontrou o afilhado caído no atalho. Levou o Tonho pra casa, cuidou dos arranhões, mas o homem tava diferente. Tinha os olhos arregalados, tremia de febre e, o mais impressionante: estava completamente mudo.

Foram três meses de silêncio absoluto. Três meses em que o Tonho precisou escutar o mundo, escutar os passarinhos, escutar a paciência da esposa e entender o peso do próprio silêncio.

Um dia, no domingo de manhã, enquanto tomava um café coado, o Tonho olhou pra esposa, pigarreou e, com a voz bem fraquinha, falou a primeira palavra em meses:

Obrigado.

Até hoje, lá na Serra do Vento Frio, você encontra o Tonho. Mas ninguém mais chama ele de Boca-Suja. Ele virou o Tonho da Paz. Fala mansinho, não levanta a voz pra bicho nenhum e, quando passa perto da figueira velha, ele sempre tira o chapéu, faz o sinal da cruz e agradece a Deus por estar vivo.

Porque ele aprendeu, do pior jeito possível, que o escuro tá sempre escutando, só esperando a gente fazer o convite errado.

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