Causo da Carona do Defunto

Imagina uma daquelas noites de breu, escura que nem boca de lobo. O tempo fechou de um jeito que a chuva descia que era um temporal, pingos grossos batendo na terra.

Nisso, tava o Zé Piaba andando na beira da estrada, voltando da roça, doido por uma carona.

Passou um caminhão devagarinho, penando na lama. O Zé não pensou duas vezes: deu um pulo e se agarrou na carroceria. Só que lá atrás, meus amigos, o motorista tava levando uma encomenda inusitada… uns caixões de defunto vazios, novinhos, indo pra funerária da cidade.

A chuva engrossou, mas engrossou com força. O vento cortava o rosto. O Zé, tremendo de frio e sem ter onde se esconder ali em cima, olhou pro caixão, olhou pra chuva… e pensou: “Uai, o defunto não tá aí, eu é que não vou ficar aqui fora pegando friagem!”.

Abriu a tampa de um, ajeitou o corpo lá dentro, fechou e, no quentinho da madeira, dormiu feito um anjo.

O caminhão rodou mais um pedaço e o motorista parou pra dar carona pra mais dois peões que tavam encharcados na beira da estrada. Os dois subiram e ficaram lá, encolhidos num cantinho da carroceria, batendo o queixo de frio e olhando desconfiados pra aqueles caixões no escuro.

Passou um bom tempo. A chuva finalmente parou, as nuvens foram embora e a lua clareou a estrada.

O Zé Piaba, lá no aconchego do caixão, acordou. Sentiu que a chuva tinha parado, empurrou a tampa devagarinho… botou a cabeça pra fora, deu aquela espreguiçada boa, esfregou o olho, olhou pros dois peões assustados no canto e soltou:

— Eita, coisa boa… parece que o tempo limpou, né?

Minha Nossa Senhora! Os dois peões não falaram um “A”. O coração veio na boca! Só se ouviu o barulho deles pulando da carroceria do caminhão em movimento e caindo no meio do mato! Dizem que tão correndo até hoje, sem olhar pra trás.

Sabe, minha gente… o medo é uma coisa curiosa.

Muitas vezes, na nossa vida, a gente foge, se desespera e pula fora do caminhão por causa de um problema que a gente nem entendeu direito o que é. O susto cega a gente pra verdade. A gente cria assombração onde não tem.

Por isso, antes de sair correndo no escuro, respira fundo e olha direito a situação. Às vezes, aquilo que mais te assusta é só o Zé Piaba fugindo da chuva!

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