Sabe aquela música que, lá pelas três da manhã, todo mundo canta abraçado e chorando as pitangas num fim de festa? “Boate Azul”.
A história por trás desse clássico é boa demais. Parece até filme.
Volta no tempo comigo. Ano de 1963. Cidade de Apucarana, no interior do Paraná.
Naquele dia exato (3 de junho), o Papa João XXIII tinha acabado de falecer. O Brasil inteiro, sendo um paÃs muito católico, entrou em luto oficial quase que na mesma hora. Imagina o clima da época. A ordem geral era de respeito absoluto e silêncio.
Aà entra o nosso compositor, Benedito Seviero. Ele estava na cidade com o parceiro dele, o cantor Aparecido Tomás de Oliveira. Eles iam fazer um show daquele estilo bem boêmio numa casa noturna super badalada da região. A tal da “Boate Azul”. A casa tava cheia, o pessoal já nas mesas, todo mundo pronto pra curtir a noite.
De repente, a polÃcia bate na porta.
Ordem do delegado: fecha tudo. Ninguém toca, ninguém dança, ninguém faz barulho. Luto nacional pelo Papa.
O dono da boate teve que acatar na hora e trancou as portas. Só que a galera que já estava lá dentro… bom, não tinha como simplesmente ir para casa no escuro e acabar com a noite assim, né? O jeito foi ficar ali mesmo. A música parou, os músicos guardaram os instrumentos, mas a bebida continuou rolando solta.
O clima no salão virou uma mistura de frustração, gente bebendo mais da conta, corações machucados e aquela melancolia pesada de uma festa que não aconteceu.
O Benedito ficou ali num canto, só observando. Olhando a luz azulada do lugar, a fumaça de cigarro, os casais tristes, o vinho nas taças… Ele pegou toda aquela atmosfera de madrugada fria e traduziu no papel.
Nascia ali o hino: “Doente de amor, procurei remédio na vida noturna…”
Mas tem um detalhe nessa história que pouca gente sabe.
A música não fez sucesso de cara. Pelo contrário. Ela acabou sendo censurada pela ditadura militar pouco tempo depois, considerada “imoral” e um desrespeito, justamente por ter essa ligação bizarra da morte do Papa com uma casa de tolerância. O papel foi para a gaveta e ficou esquecido por mais de vinte anos!
Foi só em 1985 que a dupla Joaquim & Manuel conseguiu gravar e estourar a música no paÃs todo. E aÃ, meu amigo, o resto é história. Depois vieram Milionário & José Rico, Bruno & Marrone, e hoje não existe um violeiro que não saiba tocar essa.
É louco pensar que um dos maiores clássicos de dor de cotovelo do Brasil só existe porque um Papa faleceu do outro lado do mundo. A vida dá umas voltas muito doidas.



