Causo do Julgamento da Viola
Lá no armazém do Seu Tião, toda sexta-feira era dia de roda de sertanejo. Juntava de tudo. Gente que tocava por farra, gente que cantava pra espantar a tristeza. E bem no canto dele, sempre calado, ficava o Nhô Dito.
Nhô Dito carregava uma viola que dava dó de ver. A madeira tava toda arranhada, faltava um bom pedaço do verniz e o braço do instrumento tava mais gasto que sola de sapato de carteiro. Mas ele abraçava aquele pedaço de pau velho feito filho.
Numa dessas sextas, apareceu por lá um forasteiro. Rapaz novo, estufado de orgulho, bota de couro bem engraxada e uma viola importada que brilhava tanto que ofuscava a vista. Cheia de madrepérola. O moço tocava rápido, com técnica. Mas tocava alto demais, querendo engolir a voz e o som dos outros.
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Lá pelas tantas, o rapaz olhou pro canto, viu o Nhô Dito abraçado com a viola dele e soltou uma risada de canto de boca. — Ô meu senhor… essa viola cansada aí ainda dá afinação ou o senhor trouxe pra servir de lenha no fogão?
O armazém inteiro ficou num silêncio de dar medo. Nem mosquito zumbia.
Nhô Dito não alterou a voz. Não fechou a cara. Ele só ajeitou o chapéu na cabeça, encostou a viola bem perto do peito, fechou o olho e começou a pontear.
Rapaz do céu… Não era som. Era um lamento.
Aquele dedilhado começou baixinho, chorado, e foi tomando conta do lugar. Parecia que a madeira velha tava viva. Tinha som de saudade, de chuva no telhado, de amor que foi embora há muito tempo. A viola do Nhô Dito não gritava igual a do forasteiro. Ela conversava direto com o coração da gente.
Quando o último acorde sumiu no ar, ele parou a mão no braço da viola e olhou pro rapaz.
O moço tava branco. Sem falar um “a”, ele guardou a viola chique na capa, tirou o chapéu, caminhou até o velho e estendeu a mão. — Me perdoa, mestre. A minha viola tem brilho, mas a do senhor tem espírito. O senhor me ensina esse ponteio?
Nhô Dito deu um sorriso manso, apertou a mão do rapaz e respondeu: — Instrumento novo a gente compra com dinheiro na cidade, moço. Mas a alma da viola, a gente só consegue emprestando um pedaço das dores da nossa vida pra ela. Puxa um banco e senta aí.
Tem muita coisa nessa vida que a gente julga pela casca, pelo brilho de fora. Mas é no desgaste, nas marcas que o tempo deixa, que mora a verdadeira riqueza de uma história.
E você, já cruzou com alguém ou alguma coisa por aí que não dava nada pela aparência, mas que te entregou uma baita lição de grandeza?