Causo do Seu Tonico e o relógio de bolso
Seu Tonico era um caboclo bom, trabalhador, mas tinha um defeito terrível: era apressado demais. A vida dele era correr. Não proseava direito, tomava o café queimando a língua e mal parava pra ver o sol se pôr.
Até que um dia, numa viagem pra capital, ele comprou um relógio de bolso chique. Dourado, brilhante, com uma correntinha que ele prendia no colete.
Aí, meu amigo, o trem desandou de vez. Ele não olhava mais pro céu pra saber a hora, só pro visor do relógio. Andava com aquele tique-taque no ouvido, sempre achando que tava atrasado pra alguma coisa que nem ele sabia o que era.
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— Ó o tempo, compadre! O tempo ruge! — ele dizia, cortando a prosa dos outros na venda da esquina.
Mas numa tarde de chuva forte, Tonico tava voltando da roça. O cavalo tropeçou num buraco perto da ponte e o relógio pulou do bolso direto na correnteza do rio. O homem quase pulou na água barrenta junto. Ficou ali na beira do barranco, desolado, vendo a água levar o maior tesouro dele.
Passou uns dias e o Tonico tava uma tristeza só. Parecia que tinham roubado a alma do homem.
Foi quando o compadre Zé, um pescador ali da região que não tinha pressa nem pra nascer, encostou na cerca dele. — Que cara é essa, Tonico? Perdeu alguma coisa de valor? — Perdi meu tempo, Zé. Meu relógio foi rio abaixo. Não sei mais a que horas acordo, a que horas eu como. Tô perdido.
O Zé deu uma risada mansa, daquelas que vêm lá do fundo do peito, tirou o chapéu de palha da cabeça e apontou pro céu. — Ô Tonico… O sol nasceu hoje? — Nasceu, uai. — A barriga roncou no meio do dia pedindo feijão? — Roncou. — E agora, as cigarras tão cantando e o céu tá ficando alaranjado no poente? — Tão sim, Zé. — Então, compadre… O tempo nunca teve dentro daquele vidrinho. O tempo tá solto no mundo, frouxo. Você só achou que era dono dele.
Rapaz… dizem que aquilo bateu no Tonico como um raio no meio do pasto.
Naquele mesmo dia, pela primeira vez em muitos anos, o Tonico puxou uma cadeira na varanda. Deixou o café esfriar um cadinho. Escutou a cigarra. E descobriu que, sem o relógio no bolso, o dia dele durava uma eternidade gostosa.
A vida, quando a gente corre demais, acaba escorregando pelos dedos da gente. Tem hora que a melhor coisa que acontece é perder o relógio pra conseguir achar o tempo.
E você, costuma correr muito contra o ponteiro do relógio ou sabe a hora de sentar na varanda e só escutar o barulho do vento?