O Causo do Prato Vazio
Lá pros lados da serra, vivia a Dona Cotinha. Mulher de poucas palavras, mãos calejadas de arrancar mato e um coração que não cabia no peito. O problema dela tinha nome e sobrenome: Tiãozinho, o filho caçula.
O menino tava numa fase difícil. Sabe como é, né? Achava que o mundo devia favores a ele. Reclamava da roupa, resmungava de ter que tratar das galinhas e, o pior de tudo, começou a fazer desfeita da comida.
Um belo dia, na hora do almoço, Dona Cotinha botou na mesa aquele feijão fresquinho, um arroz soltinho e um ovo frito com a gema mole. O cheiro tava divino. Mas o Tiãozinho olhou pro prato, fez uma careta daquelas e soltou: — Todo dia isso? Credo, mãe. Comida de pobre. Eu queria mesmo era aquelas coisas diferentes da cidade.
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Dona Cotinha não falou um “a”. Não brigou, não gritou, não levantou a mão. Ela só respirou fundo. Pegou o prato do menino, jogou a comida pros cachorros lá no quintal e lavou a louça em silêncio.
O Tiãozinho achou que tinha ganhado a batalha. Coitado.
No dia seguinte, quatro da matina. O galo nem tinha limpado a garganta ainda e a mãe já tava balançando a cama dele. — Pula da cama, Tião. Hoje o serviço é outro.
Deu uma enxada pesada na mão do menino, que mal conseguia abrir o olho, e levou ele lá pro fim do lote. A terra era dura, seca, cheia de pedregulho. — Tá vendo aquele pedaço ali? — ela apontou. — Você vai capinar tudo, virar a terra e plantar semente por semente. Já que a comida de casa não serve, você vai suar a sua camisa pra conseguir a sua comida chique.
E deixou o menino lá.
O sol subiu, esquentou o lombo. As mãos finas do Tiãozinho logo encheram de bolhas. A barriga roncava que parecia um trator velho. Meio-dia em ponto, ele voltou pra casa arrastando a enxada, doido por um gole d’água, achando que ia encontrar o almoço pronto.
Em cima da mesa da cozinha, só tinha um prato fundo. Vazio. E dentro dele, um único grão de feijão cru.
Dona Cotinha tava sentada no banquinho de madeira, passando café. Olhou bem nos olhos dele e disse, mansa que só ela: — O milagre da comida chique demora um bocado, meu filho. Enquanto ela não brota, a gente aprende a agradecer o que a terra dá hoje.
Dizem que o menino desabou ali mesmo. Chorou um choro silencioso, de quem engoliu o orgulho a seco, rasgando a garganta.
No outro dia? Tiãozinho raspou a panela de angu com quiabo e ainda lambeu os beiços. E nunca mais, mas nunca mais mesmo, reclamou de barriga cheia.
Às vezes, a vida não precisa de muito grito. Só precisa deixar a gente sentir um pouquinho o peso da enxada pra aprender a dar valor à sombra.
E por aí, você já viu alguma história parecida com a de Dona Cotinha e do Tiãozinho?