Lá pros cafundó do sertão, morava o Nhô Dito. Caboclo bão, trabalhador, mas que nunca tinha arredado o pé das banda de lá. Um dia, a precisão fez ele ir até a cidade comprar sal e querosene. Andando na rua de terra, ele viu um trenzinho brilhando no chão. Abaixou, pegou e, quando olhou, tomou um susto grande!
Era um espelhinho de bolso, coisa que Nhô Dito nunca tinha visto na vida. Quando ele bateu o zóio e viu aquela cara de homem maduro, de chapéu de palha e barba por fazer, o coração do coitado até disparou. — Virgem Maria! É o retrato do meu falecido pai! E como o véio tá judiado, cheio de ruga!
O bicho guardou o espelhinho no bolso da camisa, bem perto do peito, choramingando de saudade do véio. Chegou em casa, não falou nada pra mulher dele, a dona Tiana. Foi de mansinho, pegou o espelho e escondeu no fundo do baú de roupa, bem debaixo de umas coberta velha.
Todo santo dia, antes de ir capinar a roça, Nhô Dito abria o baú, espiava o espelho, dava um suspiro fundo e dizia baixinho: — Ai, meu pai… que falta que o senhor faz pra nós.
A dona Tiana, que não era boba nem nada, começou a desconfiar daquela mania. “Que tanto esse homem caça nesse baú todo dia de manhã suspirando desse jeito?”, pensou ela, já com a pulga atrás da orelha.
Um dia, Nhô Dito pegou a enxada e foi pro roçado. Tiana não pensou duas vezes. Foi lá, abriu o baú, revirou as coberta e achou o tal do espelhinho. Quando ela levantou o bichinho e olhou, o sangue subiu pra cabeça! Viu aquela mulher de cara amarrada, com o cabelo meio desgrenhado do vento, olhando feio pra ela. — Ah, caboclo safado! Escondendo retrato de outra muié dentro da minha casa! E o pior de tudo… trocou eu por essa desengonçada, feia e de cara amarga!
Tiana chorou de raiva, esperneou e saiu correndo pra casa da mãe dela, que morava logo ali no alto do morro. Chegou lá esbaforida, entregou o espelho na mão da velha: — Olha aí, mãe! O Dito tá me traindo! Olha a cara da bruxa que ele tá guardando o retrato escondido no nosso baú!
A velha ajeitou o xale, pegou o espelho, botou os óculos na ponta do nariz, apertou o olho, espiou bem espiado e deu uma risada de sacudir os ombros: — Ô, minha fia… Aquieta o coração. Pode ir pra casa sossegada que ocê não tem com que se preocupar não! — Como não, mãe?! Olha a cara da sirigaita! — Fia de Deus… O Dito nunca que ia largar ocê por causa dessa veia feia, enrugada e banguela!
É, meus amigos… O sertão e seus encantos. A ingenuidade do nosso povo da roça é a coisa mais rica que a gente tem. Um abraço bem apertado procês, e vamo que vamo!
Ouvir Rádio