Lá pros lados de São João das Almas, vivia um caboclo chamado Juca. Pensa num sujeito festeiro, que não perdia uma moda de viola. Mas o Juca tinha uma mania boba. Um desrespeito, pra falar a verdade.
Toda vez que ele voltava do boteco, já de madrugada, o caminho mais curto era passar bem na frente do cemitério da cidade. E o Juca, pra mostrar que era valente, que não tinha medo de assombração… catava um punhado de pedra no chão de terra e saía tacando no muro do campo santo.
Pá! Pá!Pá!
A pedra batia seca no muro. Ele ria sozinho e ainda gritava na rua deserta: “Acorda, povo preguiçoso!”
Os mais velhos sempre avisavam. “Ô Juca, não cutuca quem tá quieto. O respeito é a tranca da porta dos vivos.” Mas ele nem dava ouvidos. Achava que era bobagem de gente antiga.
Até que numa noite de sexta-feira, o tempo fechou de um jeito esquisito. Juca chegou em casa mais cedo. Passou o ferrolho na porta, trancou bem a janela de madeira do quarto, apagou a luz e deitou. O silêncio tava daquele jeito… pesado.
Ele tava quase pegando no sono, quando de repente… TOC.
Um barulho seco. Juca abriu um olho só. Pensou: “Deve ser rato no forro.”
Deu nem um minuto e veio de novo… TOC.
Dessa vez, a pancada foi direto na porta do guarda-roupa. Juca sentou na cama na mesma hora. O coração já começou a bater no compasso de um bumbo. Ele olhou em volta no escuro… O quarto tava todinho trancado. Não tinha buraco, não tinha fresta aberta. Da onde vinha aquilo?
Foi quando ele sentiu um vento gelado na nuca e ouviu de novo. TOC. Uma pedrinha caiu bem em cima do peito dele, em cima da coberta.
Ele pulou da cama, tremendo que nem vara verde, e acendeu o lampião às pressas. Quando a luz amarela iluminou o chão de tábua do quarto… lá estavam elas. Três pedrinhas.
As mesmas pedras de cascalho branco que ficavam na rua do cemitério. Só que elas tavam sujas com aquela terra preta e úmida de cova.
Juca ficou paralisado. Faltou o ar. Ele olhou pra cima, pro canto mais escuro do teto do quarto… e de lá do breu, ele só ouviu o som de mais uma pedrinha raspando, se soltando e caindo devagarinho na direção dele.
No outro dia cedo, o muro do cemitério tava limpo. Ninguém achou pedra nenhuma por lá. E o Juca? Bom, dizem que ele nunca mais conseguiu dormir de luz apagada.
Porque é assim, né? Quem não respeita o descanso dos outros, uma hora acaba recebendo visita no quarto pra cobrar o silêncio. E você aí… já trancou bem a sua janela hoje?
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