Nas entranhas de Suzano, onde o silêncio da noite é cortado apenas pelo canto do curiango, dizem que quem passa pela velha porteira da fazenda abandonada depois da meia-noite não volta o mesmo.
Era uma noite de lua minguante quando o seu Zé, violeiro dos bons e conhecedor de todos os causos caipiras da região, resolveu encurtar caminho. A estrada de terra estava silenciosa demais. Nem grilo, nem sapo. O ar, pesado, cheirava a terra molhada e mofo antigo.
Ao se aproximar da porteira de aroeira, que rangia num lamento fúnebre, o cavalo do seu Zé empacou. Relinchou de medo, os olhos arregalados fitando o breu atrás dos mourões. O violeiro, que não era homem de se assustar fácil, sentiu um calafrio subir pela espinha.
“Quem está aí?”, perguntou ele, a voz falhando.
A resposta veio na forma de um vulto alto, esquálido, que se materializou do nada. Não tinha rosto, apenas uma sombra onde deveria estar a face. A criatura não caminhava, ela flutuava sobre o capim alto, emitindo um som semelhante a correntes arrastando no cascalho.
Dizem que quem encontra a assombração da porteira velha vê, por um breve segundo, o reflexo de seus próprios medos estampados na escuridão daquele ser. O seu Zé não esperou. Esporeou o cavalo e galopou como se o próprio demo estivesse em seu encalço.
Chegou em casa pálido, com os cabelos brancos de susto. Nunca mais, nem por todo o ouro do mundo, cruzou aquela porteira depois que o sol se punha.



