Causo: O Segredo da Água Compartilhada
Sabe, tem coisas que a gente só aprende mesmo sentindo o cheiro da terra molhada e prestando atenção no silêncio do mato.
Lá pros lados da Serra da Saudade, vivia o Tião. Rapaz novo, trabalhador que só vendo, mas de um coração meio engessado, sabe? Tudo dele era na ponta do lápis. Se emprestava um machado, cobrava o favor na mesma semana. Se colhia um tantinho a mais de milho, metia num galpão e trancava com dois cadeados grandes. Vivia cismado de perder o pouco que ajuntava.
Logo ali, dividindo a cerca de arame, morava o seo Chico. Um velhinho de cabelo ralo, já meio curvado pelo peso dos anos, mas com um sorriso que clareava até noite sem lua. A roça do Chico parecia casa de mãe: porteira sempre encostada. Criança voltava da escola e pegava goiaba. Vizinho passava, levava um punhado de couve. O Tião espiava aquilo de longe e balançava a cabeça, jurando que o velho ia acabar na miséria.
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Aí, num ano brabo, a seca castigou com gosto. O chão rachou igual casca de árvore velha. O galpão do Tião tava fechadinho, seguro… mas tranca não faz chover, né? A horta dele queimou todinha. Perdeu foi tudo.
Desesperado, ele foi espiar o terreno do vizinho. Pra surpresa dele, a terrinha do seo Chico ainda tava verde. Tinha água lá.
O Tião engoliu aquele orgulho seco feito poeira da estrada e foi até a cerca. — Seo Chico… como é que o senhor deu conta? Minha roça morreu inteira.
O velhinho parou de capinar, limpou o suor da testa com as costas da mão e escorou na enxada. Soltou uma risada bem mansa. — Sabe, Tião… a água aqui do meu poço é pouca. Se eu trancasse ela só pra mim, secava lá no fundo, sem ver a luz do sol. Mas como eu sempre deixei o pessoal da vila vir buscar um balde quando precisava, eles ficaram agradecidos. Quando a seca apertou de vez, cada vizinho que veio aqui trouxe um galão d’água lá de baixo pra ajudar a encher minha cisterna. Amor e água, meu filho, é a mesma coisa. Se a gente represa demais, estraga. Se deixa correr, sempre volta fresca.
O Tião voltou pra casa calado. No outro dia cedinho, a primeira coisa que ele fez foi arrancar os cadeados da porta.
A Lição da Prosa A vida é como as águas de um córrego. O que a gente tenta segurar só por medo de perder, acaba estagnando e secando. Mas aquilo que a gente espalha de bom coração, a própria vida dá um jeito de devolver na hora que a gente mais precisa.