{"id":159,"date":"2026-08-25T17:51:47","date_gmt":"2026-08-25T20:51:47","guid":{"rendered":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/?p=159"},"modified":"2026-08-25T17:51:47","modified_gmt":"2026-08-25T20:51:47","slug":"causo-do-burrico-sossegado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/causo-do-burrico-sossegado\/","title":{"rendered":"Causo do Burrico Sossegado"},"content":{"rendered":"<p data-path-to-node=\"4\">Tonico era um sujeito bom, cora\u00e7\u00e3o largo, trabalhador que s\u00f3 vendo. Mas tinha um defeito danado: <b data-path-to-node=\"4\" data-index-in-node=\"97\">a tal da pressa<\/b>. O homem vivia correndo contra o rel\u00f3gio. Se plantava milho num dia, queria colher no outro. Se ia pescar, n\u00e3o tinha paci\u00eancia de esperar o peixe beliscar a isca, j\u00e1 puxava a linha. Um afobado, s\u00f4!<\/p>\n<p data-path-to-node=\"5\">E o Tonico tinha um burrinho. O <i data-path-to-node=\"5\" data-index-in-node=\"32\">Sossego<\/i>. Um bicho de pelo grisalho, manso, de passo macio, mas que n\u00e3o tinha pressa de chegar em lugar nenhum. S\u00f3 que o Tonico fervia por dentro. N\u00e3o aguentava ver os vizinhos passando por ele na estrada de terra, trotando ligeiro rumo \u00e0 feira de domingo na cidade, enquanto o <i data-path-to-node=\"5\" data-index-in-node=\"309\">Sossego<\/i> ia ali&#8230; no compasso dele. Trupicando nas pedras, devagarinho.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"6\">Um belo dia, Tonico invocou de vez.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"7\">Vendeu uns bezerros e comprou um cavalo puro-sangue, o <i data-path-to-node=\"7\" data-index-in-node=\"55\">Ventania<\/i>. Bicho alto, perna longa, pelo negro brilhando que nem graxa&#8230; mas com um olhar meio nervoso, sabe? O compadre estufou o peito. Agora sim! Ia ser o primeiro a chegar na pra\u00e7a da cidade.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"8\">Chegou o domingo. Tonico encilhou o cavalo novo, botou a melhor camisa de bot\u00e3o, deu uma esporada no bicho e partiu feito um raio. Deixou o coitado do burrinho l\u00e1 no pasto, mastigando capim.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"9\">O vento batia no rosto. A poeira subia alta na estrada. Tonico tava se sentindo o pr\u00f3prio rei do mundo. Passou pelo s\u00edtio do Nh\u00f4 Lau, passou pela venda da dona Maria&#8230; nem deu bom dia. N\u00e3o tinha tempo!<\/p>\n<p data-path-to-node=\"10\">Mas, meus amigos&#8230; a vida tem dessas coisas. A estrada da ro\u00e7a n\u00e3o \u00e9 pista de corrida.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"11\">L\u00e1 na curva do Rio das Pedras, bem na beira da cerca, uma perdiz levantou voo do mato seco, fazendo aquele barulho de repente: <i data-path-to-node=\"11\" data-index-in-node=\"127\">brrrrrr<\/i>. O <i data-path-to-node=\"11\" data-index-in-node=\"138\">Ventania<\/i>, que era cavalo de baia e n\u00e3o tava acostumado com os sustos do mato, se apavorou.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"12\">Deu um pinote daqueles. Empinou, rodopiou no ar e, num solavanco s\u00f3, mandou o Tonico voando por cima da sela. O cavalo disparou mundo afora, sumindo na poeira.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"13\">E o Tonico? Caiu sentado. Bem no meio de uma po\u00e7a de lama de porco. Sujou a camisa de domingo inteirinha, ralou o cotovelo e torceu o tornozelo. Ficou l\u00e1, estatelado no ch\u00e3o&#8230; resmungando.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"14\">Quase uma hora depois, quem \u00e9 que desponta l\u00e1 na curva? O vizinho dele, o Nh\u00f4 Lau. Montado no seu cavalinho de passo lento, pitando um cigarro de palha na maior paz. Parou, olhou pro Tonico todo enlameado na beira da estrada e perguntou, com aquele jeito manso:<\/p>\n<p data-path-to-node=\"15\">\u2014 U\u00e9, compadre&#8230; Chegou cedo na lama, hein? T\u00e1 descansando pra ir pra feira?<\/p>\n<p data-path-to-node=\"16\">Tonico abaixou a cabe\u00e7a. Nem teve resposta. Teve que voltar pra casa de carona na garupa do Nh\u00f4 Lau, no passo lento que ele tanto detestava.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"17\">Sabe, minha gente&#8230; a gente vive numa \u00e9poca em que todo mundo quer ser o <i data-path-to-node=\"17\" data-index-in-node=\"74\">Ventania<\/i>. Todo mundo quer chegar primeiro, ter as coisas pra ontem, passar na frente dos outros na estrada da vida. Mas a vida, se a gente reparar bem, n\u00e3o \u00e9 uma corrida.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"18\">A pressa cega os nossos olhos. Faz a gente perder a beleza da paisagem, esquecer de dar bom dia pro vizinho e, pior&#8230; faz a gente trope\u00e7ar de mau jeito em qualquer passarinho que levanta voo.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"19\">\u00c0s vezes, o que a gente precisa mesmo \u00e9 de um pouco mais de <i data-path-to-node=\"19\" data-index-in-node=\"60\">Sossego<\/i> na nossa jornada. Um passo de cada vez, firme no ch\u00e3o. Porque quem anda devagar, n\u00e3o s\u00f3 chega l\u00e1&#8230; como chega inteiro. E ainda aproveita o caminho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tonico era um sujeito bom, cora\u00e7\u00e3o largo, trabalhador que s\u00f3 vendo. Mas tinha um defeito danado: a tal da pressa. 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