{"id":141,"date":"2026-08-05T13:44:39","date_gmt":"2026-08-05T16:44:39","guid":{"rendered":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/?p=141"},"modified":"2026-08-05T13:44:39","modified_gmt":"2026-08-05T16:44:39","slug":"o-causo-do-velho-venancio-o-homem-que-so-sabia-xingar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/o-causo-do-velho-venancio-o-homem-que-so-sabia-xingar\/","title":{"rendered":"O Causo do Velho Ven\u00e2ncio, O Homem Que S\u00f3 Sabia Xingar"},"content":{"rendered":"<p data-path-to-node=\"3\">L\u00e1 pro lado da grota funda, morava o Nh\u00f4 Ven\u00e2ncio. Um velho de fei\u00e7\u00e3o dura, carrancudo que s\u00f3 vendo. Mas o pior n\u00e3o era a cara dele. O pior era a boca.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"4\">O homem n\u00e3o falava, ele cuspia marimbondo. Se a galinha ciscava perto, ele rogava praga. Se o tempo secava, amaldi\u00e7oava o c\u00e9u. Se chovia, xingava a terra. Parecia que o sangue dele corria amargo nas veias.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"5\">A vizinhan\u00e7a passava longe. Ningu\u00e9m queria cruzar com o Ven\u00e2ncio na estrada. Tinha gente que jurava que at\u00e9 o capim secava onde ele pisava, de tanta energia pesada que o velho carregava.<\/p>\n<h2 data-path-to-node=\"6\">O desafio na noite de finados<\/h2>\n<p data-path-to-node=\"7\">Foi numa noite de ventania braba. Aquela ventania que faz a telha assobiar e os cachorros uivarem de medo.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"8\">Ven\u00e2ncio tava sozinho na varanda, tomando um gole de pinga roxa. Um raio estourou perto da cerca e assustou o cachorro dele, que deu um pulo e derrubou o lampi\u00e3o, deixando tudo num breu danado. O cachorro fugiu pro mato, ganindo.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"9\">Ah, meu amigo&#8230; Pra que.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"10\">O velho Ven\u00e2ncio levantou espumando de raiva. Bateu o p\u00e9 no ch\u00e3o com for\u00e7a e gritou pro tempo, desafiando tudo que \u00e9 sagrado e profano. \u2014 <i data-path-to-node=\"10\" data-index-in-node=\"138\">Maldito seja esse peda\u00e7o de terra! Que a escurid\u00e3o engula tudo isso aqui, e que me engula junto, porque dessa vida eu s\u00f3 tenho nojo!<\/i><\/p>\n<p data-path-to-node=\"11\">A palavra rasgou a noite. E, logo em seguida, o vento parou.<\/p>\n<h2 data-path-to-node=\"12\">O sil\u00eancio que ensurdece<\/h2>\n<p data-path-to-node=\"13\">N\u00e3o foi um sil\u00eancio normal. Foi um sil\u00eancio oco, pesado. Daqueles que a gente ouve a pr\u00f3pria batida do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"14\">Ven\u00e2ncio tentou acender um palito de f\u00f3sforo, mas o fogo riscou e apagou na mesma hora, como se algu\u00e9m tivesse soprado. Ele tentou gritar de novo, mas a voz travou. Era como se o som tivesse sido arrancado da garganta dele.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"15\">No meio do escuro, a porta de madeira da casa rangeu. Bem devagarinho.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"16\">Ele arregalou os olhos. Um restinho de clar\u00e3o de rel\u00e2mpago iluminou a parede, e ele viu a pr\u00f3pria sombra projetada nela. S\u00f3 que tinha um problema: o velho Ven\u00e2ncio tava paralisado de pavor, mas a sombra dele&#8230; a sombra levantou o bra\u00e7o, apontou pra dentro da casa escura e come\u00e7ou a rir. Um riso sem som que gelou a espinha do homem.<\/p>\n<h2 data-path-to-node=\"17\">O fim que ningu\u00e9m explica<\/h2>\n<p data-path-to-node=\"18\">Ningu\u00e9m sabe direito o que aconteceu depois daquela noite.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"19\">Passou uns tr\u00eas dias e os vizinhos notaram que n\u00e3o sa\u00eda fuma\u00e7a do fog\u00e3o a lenha. Foram at\u00e9 l\u00e1 conferir. A casa tava completamente vazia. N\u00e3o tinha sinal de luta, n\u00e3o tinha porta quebrada, n\u00e3o tinha nada.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"20\">A \u00fanica coisa que acharam foi a roupa do velho Ven\u00e2ncio, inteirinha e abotoada, jogada no ch\u00e3o do terreiro. Parecia que o corpo tinha simplesmente evaporado de dentro dela. E a terra ali em volta, que antes era dura e batida, virou uma areia fofa e escura, como se tivesse afundado e engolido alguma coisa pra nunca mais devolver.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"21\">At\u00e9 hoje, quem passa por aquela banda da grota tem arrepios. E se o vento bate forte no meio das \u00e1rvores, d\u00e1 pra escutar uma voz rouca, bem distante e abafada, resmungando e xingando debaixo da terra, presa no escuro pra todo o sempre.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"22\">Porque na ro\u00e7a, a gente aprende desde cedo: a palavra \u00e9 semente. E quem planta maldi\u00e7\u00e3o, corre o risco de ser engolido pela pr\u00f3pria colheita.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00e1 pro lado da grota funda, morava o Nh\u00f4 Ven\u00e2ncio. Um velho de fei\u00e7\u00e3o dura, carrancudo que s\u00f3 vendo. Mas o pior n\u00e3o era a [continua&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":142,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[4],"tags":[46,65,45,78],"class_list":["post-141","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-causos","tag-caipira","tag-causo","tag-licao-de-vida","tag-moral"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Gemini_Generated_Image_efvbyoefvbyoefvb-1-1-scaled.jpg?fit=2560%2C1429&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/141","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=141"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/141\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":143,"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/141\/revisions\/143"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/142"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=141"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=141"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=141"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}