{"id":138,"date":"2026-08-05T13:27:11","date_gmt":"2026-08-05T16:27:11","guid":{"rendered":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/?p=138"},"modified":"2026-08-05T13:27:11","modified_gmt":"2026-08-05T16:27:11","slug":"o-causo-do-ze-lorota-o-dia-que-a-mentira-engoliu-o-mentiroso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/o-causo-do-ze-lorota-o-dia-que-a-mentira-engoliu-o-mentiroso\/","title":{"rendered":"O Causo do Z\u00e9 Lorota: O Dia que a Mentira Engoliu o Mentiroso"},"content":{"rendered":"<p data-path-to-node=\"5\">L\u00e1 pras bandas do Rio Manso, vivia o Z\u00e9. Mas ningu\u00e9m lembrava do sobrenome da fam\u00edlia dele, porque a regi\u00e3o inteira s\u00f3 o conhecia por <b data-path-to-node=\"5\" data-index-in-node=\"134\">Z\u00e9 Lorota<\/b>.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"6\">O homem n\u00e3o conseguia falar uma verdade limpa. Se ele pescava um lambari do tamanho de um dedo, chegava na venda dizendo que tinha brigado meia hora com um dourado de dez quilos. Se via um rastro de cachorro no mato, jurava de p\u00e9 junto que era uma on\u00e7a-pintada que ele tinha espantado no grito.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"7\">O povo da ro\u00e7a \u00e9 educado, sabe como \u00e9. Escutava, balan\u00e7ava a cabe\u00e7a, dava uma risadinha de canto de boca e deixava o Z\u00e9 falar. Ele se achava o homem mais corajoso e interessante do sert\u00e3o.<\/p>\n<h2 data-path-to-node=\"8\">A inven\u00e7\u00e3o da sucuri gigante<\/h2>\n<p data-path-to-node=\"9\">Foi num s\u00e1bado de tardezinha, com a venda do Nh\u00f4 Quim lotada de gente, que o Z\u00e9 resolveu soltar a maior mentira da vida dele.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"10\">Ele chegou suado, com a roupa suja de barro, pediu uma pinga e bateu no balc\u00e3o: \u2014 <i data-path-to-node=\"10\" data-index-in-node=\"82\">Oc\u00eas n\u00e3o sabem do perigo que eu livrei essa vila hoje!<\/i> \u2014 anunciou, com o peito estufado.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"11\">A roda de conversa parou. Todo mundo olhou.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"12\">O Z\u00e9 engatou a primeira e foi embora. Contou que tava cortando lenha perto do Po\u00e7o Fundo quando deu de cara com uma sucuri de uns trinta metros. Disse que a bicha tentou dar o bote, mas ele, muito ligeiro, pulou no pesco\u00e7o dela.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"13\">\u2014 <i data-path-to-node=\"13\" data-index-in-node=\"2\">Briguei com o bicho no bra\u00e7o!<\/i> \u2014 dizia ele, gesticulando. \u2014 <i data-path-to-node=\"13\" data-index-in-node=\"61\">Dei um n\u00f3 cego no rabo dela, amarrei no tronco de uma peroba-rosa grossa e vim pra c\u00e1 buscar ajuda pra carregar o couro!<\/i><\/p>\n<h2 data-path-to-node=\"14\">A conta chega na hora<\/h2>\n<p data-path-to-node=\"15\">O sil\u00eancio na venda foi geral. Dessa vez, ele tinha passado do limite.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"16\">Seu Ti\u00e3o, que era o homem mais velho e respeitado do lugar, levantou devagarinho, pegou a espingarda e um rolo de corda. \u2014 <i data-path-to-node=\"16\" data-index-in-node=\"123\">Pois muito bem, Z\u00e9. Uma cobra desse tamanho n\u00e3o pode ficar amarrada por a\u00ed. Os homens aqui v\u00e3o com oc\u00ea agora mesmo pra gente abater a bicha e trazer pra vila. Vamo simbora.<\/i><\/p>\n<p data-path-to-node=\"17\">O Z\u00e9 gelou. A cor sumiu do rosto dele. Ele gaguejou, disse que tava escurecendo, que a corda podia arrebentar, que era melhor deixar pra amanh\u00e3. Mas n\u00e3o teve jeito. Os homens j\u00e1 tavam com as lanternas na m\u00e3o.<\/p>\n<h2 data-path-to-node=\"18\">O milagre (e o susto) no Po\u00e7o Fundo<\/h2>\n<p data-path-to-node=\"19\">O caminho at\u00e9 o rio foi um vel\u00f3rio. O Z\u00e9 ia na frente, pingando suor frio, tremendo igual vara verde.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"20\">Na cabe\u00e7a dele, o plano era simples: chegar na tal peroba-rosa, mostrar que a corda &#8220;arrebentou&#8221; e fingir que a cobra tinha fugido. Ele rezava baixinho: <i data-path-to-node=\"20\" data-index-in-node=\"153\">&#8220;Meu Deus, me livra dessa vergonha. Faz a peroba aparecer vazia l\u00e1, eu nunca mais minto na vida&#8221;<\/i>.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"21\">Eles chegaram no Po\u00e7o Fundo. As lanternas rasgaram a escurid\u00e3o e iluminaram o tronco da peroba-rosa.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"22\">O cora\u00e7\u00e3o do Z\u00e9 Lorota quase parou. As pernas amoleceram e ele caiu sentado no barro.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"23\">L\u00e1, enrolada na raiz da \u00e1rvore, n\u00e3o tinha corda nenhuma. Mas tinha uma sucuri de verdade. N\u00e3o de trinta metros, claro, mas imensa, com a grossura de um pneu de trator, dormindo pesada depois de ter engolido alguma capivara desavisada.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"24\">Os homens da vila deram um passo pra tr\u00e1s, assustados de verdade.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"25\">\u2014 <i data-path-to-node=\"25\" data-index-in-node=\"2\">Valha-me Deus, Z\u00e9!<\/i> \u2014 sussurrou o Nh\u00f4 Quim. \u2014 <i data-path-to-node=\"25\" data-index-in-node=\"47\">Oc\u00ea n\u00e3o mentiu! O bicho \u00e9 um monstro mesmo. E oc\u00ea amarrou isso a\u00ed no bra\u00e7o?<\/i><\/p>\n<h2 data-path-to-node=\"26\">A cura da lorota<\/h2>\n<p data-path-to-node=\"27\">O Z\u00e9 tava t\u00e3o em choque com a coincid\u00eancia assustadora que n\u00e3o conseguiu confirmar a mentira. Ele olhou pra cobra, olhou pros homens e, ali mesmo, a vergonha bateu mais forte que o orgulho.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"28\">\u2014 <i data-path-to-node=\"28\" data-index-in-node=\"2\">N\u00e3o fui eu, Nh\u00f4 Quim&#8230;<\/i> \u2014 ele choramingou, com a voz embargada. \u2014 <i data-path-to-node=\"28\" data-index-in-node=\"68\">Eu inventei tudo. Eu nunca vi essa cobra na vida. Foi castigo do c\u00e9u por eu ter a l\u00edngua solta!<\/i><\/p>\n<p data-path-to-node=\"29\">Os homens se olharam. Acharam gra\u00e7a da coincid\u00eancia, mas deixaram a cobra quieta l\u00e1 digerindo o almo\u00e7o dela e voltaram pra vila, rindo a be\u00e7a do susto do Z\u00e9.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"30\">Daquele s\u00e1bado em diante, se voc\u00ea perguntar as horas pro Z\u00e9, ele pensa duas vezes antes de responder, s\u00f3 pra ter certeza de que o rel\u00f3gio t\u00e1 certo. Porque ele aprendeu da maneira mais dura: <b data-path-to-node=\"30\" data-index-in-node=\"190\">as palavras t\u00eam tanta for\u00e7a, mas tanta for\u00e7a, que de vez em quando a vida resolve transformar a nossa mentira na nossa pior verdade.<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00e1 pras bandas do Rio Manso, vivia o Z\u00e9. Mas ningu\u00e9m lembrava do sobrenome da fam\u00edlia dele, porque a regi\u00e3o inteira s\u00f3 o conhecia por [continua&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":139,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[4],"tags":[46,65,77,45,78],"class_list":["post-138","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-causos","tag-caipira","tag-causo","tag-historia","tag-licao-de-vida","tag-moral"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ocaipira_e_a_sucuri-scaled.jpg?fit=2560%2C1429&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=138"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":140,"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138\/revisions\/140"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/139"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=138"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=138"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acervocaipira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=138"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}