Tonico era um sujeito bom, coração largo, trabalhador que só vendo. Mas tinha um defeito danado: a tal da pressa. O homem vivia correndo contra o relógio. Se plantava milho num dia, queria colher no outro. Se ia pescar, não tinha paciência de esperar o peixe beliscar a isca, já puxava a linha. Um afobado, sô!
E o Tonico tinha um burrinho. O Sossego. Um bicho de pelo grisalho, manso, de passo macio, mas que não tinha pressa de chegar em lugar nenhum. Só que o Tonico fervia por dentro. Não aguentava ver os vizinhos passando por ele na estrada de terra, trotando ligeiro rumo à feira de domingo na cidade, enquanto o Sossego ia ali… no compasso dele. Trupicando nas pedras, devagarinho.
Um belo dia, Tonico invocou de vez.
Vendeu uns bezerros e comprou um cavalo puro-sangue, o Ventania. Bicho alto, perna longa, pelo negro brilhando que nem graxa… mas com um olhar meio nervoso, sabe? O compadre estufou o peito. Agora sim! Ia ser o primeiro a chegar na praça da cidade.
Chegou o domingo. Tonico encilhou o cavalo novo, botou a melhor camisa de botão, deu uma esporada no bicho e partiu feito um raio. Deixou o coitado do burrinho lá no pasto, mastigando capim.
O vento batia no rosto. A poeira subia alta na estrada. Tonico tava se sentindo o próprio rei do mundo. Passou pelo sítio do Nhô Lau, passou pela venda da dona Maria… nem deu bom dia. Não tinha tempo!
Mas, meus amigos… a vida tem dessas coisas. A estrada da roça não é pista de corrida.
Lá na curva do Rio das Pedras, bem na beira da cerca, uma perdiz levantou voo do mato seco, fazendo aquele barulho de repente: brrrrrr. O Ventania, que era cavalo de baia e não tava acostumado com os sustos do mato, se apavorou.
Deu um pinote daqueles. Empinou, rodopiou no ar e, num solavanco só, mandou o Tonico voando por cima da sela. O cavalo disparou mundo afora, sumindo na poeira.
E o Tonico? Caiu sentado. Bem no meio de uma poça de lama de porco. Sujou a camisa de domingo inteirinha, ralou o cotovelo e torceu o tornozelo. Ficou lá, estatelado no chão… resmungando.
Quase uma hora depois, quem é que desponta lá na curva? O vizinho dele, o Nhô Lau. Montado no seu cavalinho de passo lento, pitando um cigarro de palha na maior paz. Parou, olhou pro Tonico todo enlameado na beira da estrada e perguntou, com aquele jeito manso:
— Ué, compadre… Chegou cedo na lama, hein? Tá descansando pra ir pra feira?
Tonico abaixou a cabeça. Nem teve resposta. Teve que voltar pra casa de carona na garupa do Nhô Lau, no passo lento que ele tanto detestava.
Sabe, minha gente… a gente vive numa época em que todo mundo quer ser o Ventania. Todo mundo quer chegar primeiro, ter as coisas pra ontem, passar na frente dos outros na estrada da vida. Mas a vida, se a gente reparar bem, não é uma corrida.
A pressa cega os nossos olhos. Faz a gente perder a beleza da paisagem, esquecer de dar bom dia pro vizinho e, pior… faz a gente tropeçar de mau jeito em qualquer passarinho que levanta voo.
Às vezes, o que a gente precisa mesmo é de um pouco mais de Sossego na nossa jornada. Um passo de cada vez, firme no chão. Porque quem anda devagar, não só chega lá… como chega inteiro. E ainda aproveita o caminho.



